Entrevista con Licínio de Azevedo, director de 'Virgem Margarida', por Fabiano Ristow. Publicada en O Globo, el 2 de julio de 2015
Um dos destaques da mostra África, Cinema — Um Olhar Contemporâneo, em cartaz na Caixa Cultural desde anteontem, o drama moçambicano “Virgem Margarida” conta a história de uma jovem camponesa (Sumeia Maculuva) levada, por engano, a um campo de reeducação de prostitutas. Ambientado nos anos 1970, durante a revolução no país, o filme terá uma sessão na próxima terça, às 17h. Licínio Azevedo, diretor brasileiro radicado em Moçambique, onde ajudou a criar o Instituto Nacional de Cinema, conta por que a história de Margarida, baseada em fatos, o atraiu.
Como você conheceu a história de Margarida?
O fotógrafo Ricardo Rangel, morto há cinco anos, um dia tirou uma foto de uma prostituta, de minissaia, escoltada por dois militares recém-saídos da guerra pela Independência. O objetivo era levar essas mulheres — símbolos da decadência e exploração colonial — para um centro de reeducação no meio da floresta, entre animais selvagens, para serem transformadas em “mulheres novas”. A foto me inspirou a fazer um documentário sobre isso. Nas entrevistas, conheci a linda história de Margarida, uma adolescente virgem carregada como uma folha seca pelo rio. Isso merecia virar um longa de ficção.
Qual a sua opinião sobre os chamados centros de reeducação?
Isso aconteceu há décadas. Na época, eu achava algo positivo. Era um processo revolucionário. Mas aí identifiquei que o problema não estava na ideia, e sim nas pessoas. O homem tinha um poder absoluto sobre aquelas mulheres, que sofreram vários tipos de violência. No filme, Margarida é o gancho para se falar sobre aquela situação, a relação entre as mulheres e as guerreiras camponesas, e sobre como eventualmente todas se unem contra a opressão. No fim, o mal está no homem, não na ideologia.
Você se interessa por feminismo? Qual o espaço da mulher em Moçambique, na sua opinião?
Falo sobre feminismo no filme, mas o fato é que Moçambique tem uma grande taxa de mulheres na política, em assembleias e ministérios. Mulheres já concorreram à presidência.
Você fundou a Ebano, uma das mais antigas e importantes produtoras de Moçambique. Qual a principal característica do cinema desse país, na sua opinião?
Temos um forte histórico de produção de documentários, motivada pelo nosso interesse político. Até as ficções são bastante calcadas na realidade. O cinema foi um grande fator de unificação aqui.
