Crítica de A via láctea, por José Geraldo Couto. Publicada en Folha de São Paulo, el 1 de noviembre de 2007.
O cinema de Lina Chamie, como já havia ficado claro em seu primeiro longa-metragem, “Tônica Dominante” (2000), é menos narrativo do que poético e musical. Em “A Via Láctea” a diretora amadurece e aprofunda esse seu modo de encarar “o mundo que é” e “o mundo que poderia ser”. A partir de uma situação dramática forte – um amante que atravessa a metrópole em busca da amada, com quem discutiu ao telefone -, o filme desdobra cadências, harmonias, contrapontos e dissonâncias. Não é à toa que um dos livros citados ao longo da odisséia urbana de Heitor (Marco Ricca) seja “Fragmentos do Discurso Amoroso”. O filme, de certo modo, realiza no plano audiovisual uma operação análoga à do livro de Barthes ao identificar, glosar e desconstruir motivos, tropos e clichês do relacionamento amoroso.
A viagem de Heitor em busca de Júlia (Alice Braga) é mais musical do que geográfica. Não só porque é pontuada por peças de Mozart, Schubert, Satie, Jobim, Manu Chao, mas porque sua progressão não é linear, e sim feita de tema e variações, de motivos recorrentes, de rimas visuais e sonoras. É um deslocamento inverossímil (o protagonista demora horas para percorrer a avenida Paulista), mais espiritual – em falta de palavra melhor – do que físico. Chamie não está preocupada com o realismo de um draminha psicológico urbano. Seu horizonte é cósmico, e no limite, metafísico.
Não é um filme perfeito, e nem poderia, em se tratando de uma obra de risco. (Arriscar implica também errar, embora nem sempre nos lembremos disso.) Uma certa redundância da locução em “off”, em que o protagonista externa pensamento tornados mais ou menos evidentes pela imagem, indica talvez um receio de perder a inteligibilidade. O mesmo vale para o recurso excessivo aos “flashbacks”, que em alguns momentos quase afrouxam a tensão do relato. No mais, “A Via Láctea” é um banho de invenção em meio a um cinema preocupado demais em agradar aos espectadores de TV.
