Crítica de A via láctea, por Walter Salles. Publicada en Correio Brasiliense, el 22 de diciembre de 2007.
Nos últimos anos, o cinema brasileiro foi acometido por uma febre estatística. A bilheteria de um filme passou a ser um critério dominante, como se aquilo que os norte-americas chamam de box office fosse por si só uma garantia de qualidade. Como se a lista dos filmes mais vistos do ano bastasse para avaliar uma cinematografia.
O que determina o valor real de um filme? Sua capacidade de resistir ao tempo, de gerar uma memória, de levanter um debate aberto sobre temas urgentes. Há ainda uma outra função essencial, que é a de abrir janelas para o que ainda não conhecemos. Para quem acredita no cinema com instrumento de entendimento do mundo, A Via Láctea, o novo filme de Lina Chamie, é um achado, um filme de rara sensibilidade e capacidadede invenção.
Em cena, a deriva amorosa. No início havia um homem, Heitor (Marco Ricca), e uma mulher, Júlia (Alice Braga). O espaço em que eles se encontram e desencontram não é edênico. Heitor se perde em busca de Júlia numa selva concreta: a cidade de São Paulo. Esta interdependência entre geografia física e humana, presente em vários filmes de jovens realizadores brasileiros, atinge aqui um ponto alto. A sombra de Borges não está distante: as ruas e avenidas de São Paulo vista por Chamie são labirínticas. Impossível não desaparecer nelas.
A estrutura não-linear favorece um cinema em que o espectador é convidado a preencher o espaço vazio. Os atores fazem com que essa troca seja especialmente generosa. Marco Ricca, ator emblemático de um cinema brasileiro recente que ousa e acredita no risco, confere uma densidade e convicção incomuns ao personagem de Heitor. A inteligência de sua atuação está em perfeita sintonia com a estrutura essencialmente poética, musical, do filme de Lina Chamie.
A imagem não tem nunca função ilustrativa. Ao contrário, a luz e a câmera da diretora de fotografia Kátia Coelho são sempre expressivas, fazendo de A Via Láctea um dos filmes que melhor utilizaram a tecnologia digital nos últimos anos. A montagem, sincopada mas nunca clipada, confere ao mesmo tempo ritmo e frescor narrativo ao filme.
A marca de uma diretora de talento se percebe quando todos os elementos de um filme caminham de mãos dadas, cada cena ecoando na cena seguinte. Lina Chamie não escolheu atalhos para contar a história de personagens que vivem os últimos instantes desse demorado adeus que é vida. Fez um filme corajoso, que talvez não seja para o gosto de todos, mas que veio para irrigar o cinema brasileiro.
Clarice Lispector costumava dizer que não costurava para fora, e sim para dentro. Com A Via Láctea, Lina Chamie, segue na mesma direção.
