Trecho de artigo de Marcia Carvalho. Publicado na Revista Universitária do Audiovisual, em 15.03.2009.
No momento histórico atual, em que se proclama o “fim das ideologias”, uma fina camuflagem das tradições conservadoras brasileiras e a transformação de questões políticas em discussões econômicas, o cinema brasileiro tornou-se pauta para a grande imprensa e tema para investigações estéticas e poéticas. Com as leis de incentivo, prêmios internacionais e, principalmente, a Lei do Audiovisual foi possível o que se convencionou rotular de “retomada” ou “renascimento” do cinema brasileiro, termos criados para destacar o expressivo marco histórico de retorno de produção de cinema efetuado no Brasil a partir de 1994.
Entre o elogio persistente à diversidade e o início da aceitação média de público, interessado principalmente nos telefilmes, fazem-se notar certos exemplos particulares de filmes dentro deste panorama contemporâneo de produção, como é o caso específico de Um céu de estrelas (1996), dirigido por Tata Amaral, com roteiro de Jean-Claude Bernardet e Roberto Moreira. Filme de extrema coerência em sua estrutura dramática, com belas resoluções cênicas realizadas por meio de uma particular manipulação de câmera e direção.
O roteiro do filme é uma adaptação livre do livro homônimo de Fernando Bonassi. O livro, segundo o próprio autor, busca partilhar a dor e o desalento de um homem que seqüestrou a sua ex-noiva, pretendendo que ela volte a amá-lo. Trata-se de uma estória focada neste personagem masculino que busca dialogar com os versos do dramaturgo Bertold Brecht, presentes na epígrafe do livro: “Ah/ Quem é capaz de imaginar/ Um céu de estrelas/ Esse/ Bem poderia calar a boca”. Entretanto, o filme narra a jornada de uma personagem feminina, uma cabeleireira chamada Dalva (interpretada por Leona Cavalli), que vislumbra a possibilidade de mudar a sua vida através de uma viagem para Miami. Mas seu ex-noivo, Vítor (interpretado por Paulo Vespúcio Garcia), tenta reatar o relacionamento. Confinados em uma casa, em um único dia, estes personagens vivem um drama que mescla violência e erotismo.
Curiosamente, na época de realização do filme também foi criada uma adaptação da mesma estória para o teatro. A peça foi dirigida por Lígia Cortez (que realizou a preparação dos atores no filme, e também participou como atriz interpretando uma repórter de televisão) com Tata Amaral na assistência de direção, e a colaboração de Fernando Bonassi e Jean-Claude Bernardet para a transposição do roteiro para o palco. Este trabalho foi feito durante a fase de finalização do filme, e os realizadores aproveitaram algumas imagens, como também alguns sons de sua trilha sonora.
Tata Amaral começou a sua carreira no cinema nos anos 80, integrando uma geração de cineastas paulistas que foram responsáveis por uma certa revitalização de produção de curtas- metragens entre a segunda metade dos anos 80 até a primeira metade dos anos 90, bastante promovida por eles mesmos.[2] A diretora revela, desde os seus primeiros filmes, um trabalho afinado com algumas tradições paulistas de cinema, com uma predileção por uma forte vertente de produção atrelada à temática da cultura urbana, que coloca a cidade como cenário de tensões e conflitos, e elege personagens e situações extraídas das experiências sociais.
Os seus dois primeiros curtas-metragens são de 1986 e foram co-dirigidos com Francisco César Filho:[3]Poema-Cidade, um filme que trabalha a inspiração da poesia concreta de Augusto de Campos na paisagem urbana de São Paulo, colocando poemas pela cidade. E Queremos as ondas do ar!, filme panfletário sobre a liberdade nas telecomunicações no Brasil, abordando a necessidade de rádios e tvs comunitárias e piratas. A dupla também realizou o vídeo Vintedez (2001), que é um documentário sobre adolescentes que moram em Santo André, abordando a cultura hip hop.
Em 1988, Tata partiu para a carreira de ficção ao realizar o curta-metragem História Familiar, em que um casal tenta namorar enquanto vê televisão, fala ao telefone e come pizza. Neste filme, a diretora já experimenta um trabalho de diálogo de uma televisão com o cotidiano de dois personagens em um espaço fechado (trabalho este que se desenvolve em Um céu de estrelas). Mas o seu curta de maior sucesso foi Viver a vida (1991), que narra o cotidiano de um office-boy repleto de filas, esperas e trambiques. Após Um céu de estrelas Tata Amaral dirigiu os longas Através da janela (2000) e o mais recente Antônia (2007).
No percurso dos dramas de família, identifica-se uma tendência significativa no cinema brasileiro da década de 90 com a presença de exercícios apurados de perfis psicológicos, conflitos morais e de uma elaboração dramatúrgica de experiências domésticas singulares pontuadas pela violência como resposta à pobreza e ao fracasso de personagens e territórios em crise.
O desencanto e a crise dos relacionamentos familiares na sociedade brasileira atual permeiam Um céu de estrelas que é centrado numa personagem feminina pobre, e em sua estória de revelação e engano diante de seu sonho de liberdade e de seus dois grandes obstáculos: a sua mãe e o seu ex-noivo. Entretanto, o filme não se coloca como porta-voz de minorias, nem tampouco aborda uma questão feminista ou de unidade familiar como célula de reprodução da ordem econômica. O drama narrado ultrapassa imperativos morais adentrando o terreno da esfera dos afetos que se traduz por meio da insensatez e da desordem de relacionamentos intersubjetivos. Destaca-se a crueza na maneira como o filme incorpora a violência no enredamento de seus personagens e da própria narrativa, e, ao mesmo tempo, cria uma intimidade a partir da relação entre câmera-ator, colando a atenção do espectador na dissecação de uma experiência de vida privada.
Marcia Carvalho
