Crítica de Viajo porque preciso, volto porque te amo, por Inácio Araujo. Publicada en Folha de S. Paulo. 6 de mayo de 2010.

Sendo um filme de dois diretores, Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, seria justo indagar que planos em «Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo» pertencem a um ou a outro. Mas, diante das imagens, isso já não importa.

Só importa a estrada: interminável, por onde transita um geólogo. A frase que dá nome ao filme ele viu em algum lugar.

Ele não viaja porque precisa.

Viaja porque sua amada o abandonou. Viaja para esquecer. E quanto mais tenta esquecer, mais lembra.

O geólogo não aparece. A mulher também não. O sertão, sim. Trata-se de uma transposição de águas, de irrigar o sertão. O geólogo busca as terras certas, os lugares certos, econômicos.

Assim como busca voltar. Ele escreve cartas para a amada, um diário que nunca enviará. Ficará entre ele e nós. Perdido na savana, sem encontrar sua interlocutora.

Estranho, lindo filme. Vemos logo de início a estrada deserta e a paisagem sertaneja. Interior do Ceará. Tudo móvel. De repente, tudo para: a câmera, o plano, a paisagem. Corte seco.

Ruptura semelhante à ruptura do casal. E daí por diante a tensão entre a estrada (movimento) e a parada (cidade), solidão e encontro, a imagem imaginada, escrita, e a imagem/vida que se acha no caminho. Talvez (é só uma hipótese), a parte do movimento, do deslocamento, seja mais a de Gomes, pois assim era «Cinema…»: um caminho sem fim, para lugar nenhum. Talvez a de Aïnouz seja a do retorno, do reencontro, como «O Céu de Suely». Nenhum dos filmes era tão forte quanto este, mas ambos trabalhavam em torno das relações entre a imagem e a imaginação (a do estrangeiro, em um caso; a do Sul, no outro). O encontro parece ter juntado suas virtudes e feito esse filme de grande, estranha, intensa beleza.

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