Entrevista a Lúcia Murat, por Ronaldo Pelli. Publicada en Diario O Globo (Brasil), el 3 de abril de 2008.

“(O ator) Babu (Santana) falava para mim: ‘Lúcia, por que você não fala que é bom filmar em favela?’. É verdade. É bom filmar na favela.” Além de acabar com qualquer tipo de preconceito social, a frase da diretora Lúcia Murat, ex-militante de esquerda que chegou a ser presa pela ditadura militar brasileira, está de acordo com o clima de seu filme “Maré, nossa história de amor”, que estréia nesta sexta-feira (4).

O filme, uma versão contemporânea e musical do clássico de William Shakespeare «Romeu e Julieta», é ambientado no conjunto de favelas da Maré, uma das áreas mais perigosas do subúrbio do Rio de Janeiro. Mas mostra que nem só de tiro vive a área.

“As pessoas (na favela) são solidárias, todo mundo quer ajudar. Na hora de filmar, você dá um grito com as crianças que ficam lá (no set), e todo mundo fica quieto”, exemplifica a cineasta conhecida por filmes políticos e de preocupações sociais, como “Quase dois irmãos” e “Doces poderes”.

A diretora conta que os moradores deixaram a passividade de lado e se deixaram levar pelo mundo do cinema, ficaram fascinados.

“Houve cenas lindas (durante a filmagem), que demonstram bem a carência do lugar onde eles vivem. Eu fazia um plano fechado e as pessoas ficavam ao lado. Quando eu gritava ‘corta’, eles aplaudiam, como se fosse teatro. É lindo. Essa relação com a comunidade é muito boa”.

Mas nem todas as ligações com a favela são bonitas ou boas. A diretora conta que, além da Maré, teve que rodar o filme em outras locações, como a Tavares Bastos e a Rio das Pedras, que inspirou a Portelinha da novela “Duas caras”, por causa da insegurança.

“A idéia era filmar lá (na Maré). Mas há algumas zonas pesadas, e eu tinha elenco de apoio, não podia arriscar. A chamada ‘faixa de gaza’ (área dentro do conjunto que separa duas favelas dominadas por gangues rivais) é muito barra pesada. É um silêncio total, você sai de uma área para outra e sabe que tem gente armada de um lado e do outro. Os postes estão cheios de balas, as casas, totalmente desvalorizadas. Entre 18h e 7h, eles (os traficantes) estão armados na rua, de um lado e do outro lado, atirando.”

A diretora argumenta, porém, que a violência não é um fenômeno tipicamente carioca. Segundo ela, a cidade apenas é mais explícita com relação à insegurança.

“Acontece na Cidade do México e na Tailândia. Acaba virando uma questão que é difícil não tocar. Tudo é muito presente. Você, como classe média, que tem uma visão um pouquinho mais aberta, que sai da grade que te protege para ver TV, é impossível não lidar com isso.”

Longe de serem antros de crimes, Lúcia explica que as favelas também produzem coisas boas. Exemplo é o elenco de “Maré”, composto em sua maioria por jovens moradores de comunidades pobres. Gente como o próprio Babu Santana, que interpreta Dudu, em um papel escrito para ele. Babu, considerado pela diretora um “gênio”, saiu do grupo de teatro «Nós do morro», da favela do Vidigal, para atuar em vários filmes, como “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, e “Redentor”, de Cláudio Torres.

Outro exemplo é o grupo de dança criado especialmente para o filme com garotos e garotas de todo o Rio de Janeiro. Segundo a diretora, que também é ex-bailarina, foram testados 500 dançarinos até chegar à equipe.

“O filme dá conta da explosão cultural da favela. Não é só a parte da violência”, resume ela.

 

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