Entrevista a Tata Amaral, publicado el 03/10/1997 em Caderno C (jornal JC, Brasil)

A paulista Tata Amaral encaixa-se perfeitamente no perfil do novo cineasta nacional. É jovem (36 anos), trabalhou com vídeo, fez publicidade e curtas-metragens.Sua estréia no longa metragem ocorreu ano passado com Um Céu de Estrelas, produção de R$ 380 mil premiada nos festivais de Brasília, do filme Latino Americano em Boston, nos Estados Unidos, e Biarritz, na França. Tida como um dos nomes mais promissores da nova safra nacional, junto aos colegas Beto Brant, Paulo Caldas e Lírio Ferreira, Amaral trabalha agora num novo projeto cujo título é Através da Janela, uma história de amor entre mãe e filho. Com o lançamento esta semana, no Recife, de Um Céu de Estrelas, a cineasta foi entrevistada por telefone por Kleber Mendonça Filho, para o Caderno C.

Jornal do Commercio – Um dos pontos que mais chamam a atenção em Um Céu de Estrelas é o forte confronto físico entre Dalva e Vitor. Como é que você trabalhou isto?

Tata Amaral Um Céu de Estrelas é o tipo de filme que pede uma super preparação por parte dos atores, pois esses dois personagens sozinhos sustentam a própria história. Ensaiamos exaustivamente e nesse departamento, tive a ajuda valiosa de Lígia Cortez , uma excelente atriz, amiga minha com quem trabalhei em Queremos as Ondas do Ar, meu primeiro curta. Trabalhamos duro com Alleyona e Paulo em laboratórios que ajudaram a definir os rumos dos personagens. Um dos nossos maiores desafios foi dar uma continuidade à ação, que se passa numa tarde e numa noite. Por isso, tivemos que tomar cuidados especiais como fazer com que os atores fossem correr um pouco para terminar uma sequência na qual, no dia anterior, os personagens estavam suados e ofegantes.

JC – Como Você Encara a Violência no Seu Filme?

TA -Tem um momento no filme em que a Dalva diz «onde é que isso vai parar?», e foi algo que eu cheguei a perguntar isso à própria equipe algumas vezes! Por estar trabalhando com uma tragédia, o filme foi construído a partir de um pensamento de Aristóteles, que diz: «A tragédia é necessária ao Homem por purgar seus sentimentos». Ele diz ainda que «A violência deve inspirar o terror e a Piedade». É uma idéia que mostra a necessidade da violência para alguma forma de redenção, o que é exatamente o que acontece com Dalva. Acho também que a violência é, por si só, por excelência, cinematográfica e fotogênica. Existem diferentes maneiras de abordá-la, claro, que vai da ironia do Tarantino, que eu nãosei fazer, à violência espetacular do Schwarzenegger, do tipo que dura apenas duas horas, você vai embora e está tudo bem. A violência de Um Céu de Estrelas, no entanto, contém uma ética minha, empregada para retratar uma situação limite.

JC – Você aceita a idéia de que, no final das contas, Dalva cometeu o crime perfeito, ou seja, com a conclusão da crise, ela vê-se livre de Vitor e da mãe?

TA – Exatamente, esta idéia está bem clara no roteiro. O único senão é que não foi uma coisa premedidata, maquiavélica. As coisas aconteceramnaturalmente e caminharam para aquele final trágico.

JC – Numa época em que o cinema nacional tem explorado grandes paisagens e muita cor, você faz um filme que se passa dentro de um apartamento. Como foi lidar com um cenário tão fechado?

TA – A história se passa dentro de um apartamento. Além disso, o projeto previa dois quesitos básicos. Primeiro, a utilização de um foco narrativo, uma solução encontrada por Bernadet e Moreira, os roteiristas, que significa utilizar um dos personagens, no caso a Dalva, como fio condutor de todo o filme, que é visto através dos olhos dela. Não vemos, por exemplo, um vizinho chamando a polícia. A ação se passa toda dentro de casa e o espectador pode apenas imaginar o que está acontecendo lá fora. Esta utilização do foco narrativo gera uma dramaticidade maior e nos faz também economizar em termos de produção, sem cenas adicionais ou externas. O segundo quesito que muito tem a ver com a exploração de um ambiente fechado é a tecnologia que foi utilizada. Um Céu de Estrelas foi rodado em Super16 milímetros, que é um equipamento mais leve e de maior mobilidade para o tipo de filmagem fechada que tivemos.Claro, depois tivemos que ampliar para 35 milímetros nos Estados Unidos.

JC – O filme tem sido exibido em festivais no exterior. Como tem sido a reação de platéias estrangeiras?

TA – Jean Claude Bernadet acompanhou o filme durante o Festival de Biarritz e a platéia ficou muto chocada com tudo que viu. No Festival de Filmes de Mulheres de Créteil, também na França, a recepção não foi apenas excelente, o filme ganhou um prêmio especial do júri, mas o trabalho foi discutido nos mínimos detalhes, o que é sempre uma experiência gratificante.

JC – Um Céu de Estrelas é considerado por muitos como um dos melhores filmes desta «nova safra» da produção nacional. Como você vê este momento atual?

TA – Acho maravilhoso o período pelo qual estamos passando. Filmes como Os Matadores e Baile Perfumado representam uma diversidade de estilos e temáticas que, a meu ver, refletem a própria dinâmica do que antes tinhamos apenas no cenário de curtas metragens, que foi a verdadeira escola do que vemos hoje. Acho que existe uma injeção de sangue novo e identidades muito fortes em ação.

JC – Qual o seu próximo projeto?

TA – Estou trabalhando no projeto de um longa chamado Através da Janela, sobre o amor entre uma mãe e um filho ambientada no bairro classe-média de Santa Cecília, aqui em São Paulo, um bairro que passa por um processo de mudanças, tendo suas casas substituídas por prédios. Não é uma história de incesto, mas uma história de amor.

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