Crítica de Maré, nossa história de amor, por Ronaldo Pelli. Publicada en Diario O Globo (Brasil), el 3 de abril de 2008.

Qual é a chance de um musical passado em uma favela e inspirado “livremente” na história de Romeu e Julieta dar certo? Poucas, correto? Mas a diretora Lúcia Murat conseguiu um belo resultado com “Maré, nossa história de amor”, que estréia nesta sexta-feira.

Na história de Jonatha (o Romeu, interpretado por Vinicius D’Black) e Analídia (a Julieta de Cristina Lago), sai Verona, na Itália, entra a Favela da Maré, à beira de uma das principais vias cariocas, a Linha Vermelha. As famílias Montecchio e Capuletos são substituídas por quadrilhas de traficantes rivais. E, como território neutro, em vez da igreja e do frei Lourenço no original do inglês William Shakespeare, aparece a escola de dança comandada por Fernanda (uma Marisa Orth empolgada, assim como sua personagem).

Com esse artifício, a ex-bailarina e ex-guerrilheira de esquerda Lúcia Murat consegue fazer um musical com poucas cenas despropositadas, em que as pessoas dançam e cantam aleatoriamente. No geral, as coreografias estão inseridas dentro de um contexto e, principalmente, funcionam como uma crítica ao preconceito ou à violência.

Exemplo é a cena na Linha Vermelha, usada nas propagandas e trailers, em que um grupo de moradores da favela interrompe o tráfego para, ao som de “Minha alma” do Rappa, protestar por terem sido discriminados na praia. Durante a manifestação, os meninos e meninas fazem menção à maneira como são lembrados pela classe média: lavando vidros de carros – e sendo expulsos -, fazendo malabarismos com bolinhas ou portando armas.

Ou ainda a disputa no interior de um baile funk em que “lado a” e “lado b”, em vez de trocarem socos, pontapés e tiros, se enfrentam com passos de break, jogando capoeira ou dançando livremente.

Diálogos realistas

Outro fator que faz o filme dar certo é o tom dos diálogos. Murat usa muitos atores não-profissionais acostumados, senão às situações do filme, ao ambiente de comunidades pobres em que grupos armados tomam o lugar que deveria ser do Estado. Os traficantes interpretados por Anjo Lopes, Jefchander Lucas e pelo já conhecido Babu Santana (que já trabalhou com Lúcia Murat em “Quase dois irmãos”) tornam o filme extremamente realista. É o contraponto perfeito para as músicas e danças.

Entretanto, esses atores, além de Marisa Orth e outros com participações menores, “engolem” o casal de protagonistas que, apesar de bonitos e terem o requebrado necessário para um musical, são crus e não apresentam muitas nuances nas suas interpretações. Mas não é nada que comprometa.

Para dar ainda mais veracidade, há um momento em que Marisa Orth sai do personagem, se transforma em uma entrevistadora, e o filme vira um documentário metalingüístico. Os meninos da escola de dança acabam de ver uma interpretação de balé clássico para Romeu e Julieta. Marisa Orth pergunta se seria possível transportar a história para os dias de hoje. Os meninos respondem, mostrando um romantismo mais pragmático, que uma das modificações necessárias é trocar o figurino: as calças devem ser mais largas. Com a resposta simples, provam que um clássico é eterno, independente da roupagem.

 

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