Crítica de 'Virgem Margarida', por Ana Dias Cordeiro. Publicada en Público, el 22 de noviembre de 2013

Em Virgem Margarida, o realizador Licínio Azevedo revela uma página obscura do pós-independência de Moçambique, quando milhares de mulheres foram levadas à força para centros de reeducação.Esta é a história de uma virgem que só era prostituta na cabeça dos seus carrascos.

Em 1978, o realizador Licínio Azevedo (n. 1951) viu uma prostituta ser escoltada por dois militares fardados, numa fotografia captada pelo moçambicano Ricardo Rangel, e nunca mais tirou os olhos dela. Pelo menos até 1999, quando estreou o seu documentário a que deu o mesmo título irónico que Rangel tinha dado à fotografia, A Última Prostituta.

Se a fotografia serve de inspiração para o documentário, este desemboca anos depois no filme de ficção Virgem Margarida, que teve a sua estreia mundial no Festival de Cinema de Toronto em Setembro de 2012, passou por muitos outros festivais (onde foi distinguido com alguns prémios) e chega agora a um cinema de Lisboa (Amoreiras). O realizador, de dupla nacionalidade brasileira e moçambicana, deseja que ele seja visto por portugueses, nostálgicos ou não, de uma ligação com Moçambique.

Maputo, 1975. Os militares acabados de chegar à capital do país em plena celebração da independência, abriam caminho a uma nova fase da luta, com a criação do «homem novo» e da «mulher nova» socialistas, forçando a um exílio desconhecido todos os degenerados, com ou sem regeneração possível. Homens fardados, como os da imagem do fotojornalista Ricardo Rangel (1924-1999), executavam ordens impostas pelo regime marxista-leninista em nome da pureza da revolução. A mulher da fotografia e, como ela, dezenas de milhares de outras – prostitutas ou mulheres de saia justa e lábios pintados, mães solteiras, mulheres sozinhas ou sem documentos – desapareciam e não deixavam rasto. Impuras, mereciam ser apagadas da memória por terem sucumbido aos males do colonialismo. Eram levadas para o interior mais inóspito do Noroeste de Moçambique, província do Niassa. Nas profundezas do mato, elas próprias, em regime de trabalho forçado, construíam os centros de reeducação sobre alguns antigos lugares simbólicos da luta de libertação.

Durante os dois anos (pelo menos) de existência dos centros, logo a seguir à independência, e depois, nada se sabia: quantos foram criados, quantas mulheres lá estiveram, quantas desapareceram ou regressaram, quantas mudaram de vida. Muitas morreram, por doença ou apanhadas por animais quando arriscavam a fuga. A campanha (ou perseguição) estendeu-se depois também aos homens – homossexuais, dissidentes, testemunhas de Jeová, alcoólicos, desempregados ou delinquentes – que eram enviados para centros de reeducação masculinos.