Entrevista con Luís Galvão Teles, director de 'Dot.com', publicada en Diario de noticias, el 15 de mayo de 2006

Salvem o nosso site.» A T- -shirt, com o apelo gravado, não é, no entanto, usada por todos os actores e figurantes do filme Dot Com, de Luís Galvão Teles. A rodagem da cena, no largo de Dornes, vila do concelho de Ferreira do Zêzere, deixa entender que nem todos os 38 habitantes de Águas Altas (a aldeia do filme) defendem, com a mesma convicção, a causa. A disputa do site oficial da povoação, por uma multinacional sediada em Madrid, compromete a união da terra, onde a desconfiança em relação a alguém de fora também funciona como elo de ligação.

Tudo começa com a chegada de Pedro, um engenheiro de 27 anos, para ali deslocado, para tratar da construção de uma estrada contra o isolamento da aldeia, escondida no interior de Portugal. Mas o projecto é suspenso e o técnico, enquanto espera, cria o www.aguasaltas.com, um site que não tarda a ser reclamado pela empresa madrilena, reivindicando-se dona da marca.

O conflito atira, quase de repente, a pacata povoação para as primeiras páginas dos jornais, rádios e TV do País e estrangeiro. No meio da polémica, o jovem e hesitante engenheiro (protagonizado por João Tempera) tenta a aliança entre a população e a empresa, enquanto não desiste de reconquistar Ana (Isabel Abreu), a ex-namorada, que deixara em Lisboa, mas «atravessa-se-lhe» Elena (Maria Adanez), fervorosa representante da multinacional.

Na última quarta-feira, nada deixa perceber, em Dornes, estes momentos do enredo. É dia de filmar a festa de Águas Altas. No largo da aldeia, rodeado pelo Zêzere, por todos os lados, menos por um – aquele por onde, a partir da torre pentagonal da igreja, se desenvolve a povoação -, a banda filarmónica ensaia. Pendurado numa trave, um porco inteiro deixa perceber a dimensão do arraial. À sombra de uma árvore, actores repetem passos de dança. «É uma valsa a dois tempos», sublinha João Tempera, exemplificando com Isabel Abreu e Maria Adanez.

Luís Galvão Teles está satisfeito. Se Dot Com não resultar – assim se deverá chamar a fita -, «a culpa é toda minha». Instalou-se em Dornes durante sete semanas, para 40/41 dias de rodagem. «Precisava de mais uma semana, mas impera a lei do dinheiro.» Optou por acelerar o ritmo das filmagens e investir mais em aspectos criativos e de ordem técnica, explica. Mas «tudo correu bem, a maré foi quase sempre favorável», diz ainda, ao DN, o realizador, sem poupar elogios a actores, técnicos e outros colaboradores, à aldeia e seus habitantes – estes, sem excepção, figurantes, todos «extraordinários cooperantes», a vários níveis.

Dornes «mais que as portas, abriu-nos o coração», sublinha o cineasta, enaltecendo «a generosidade e eficiência» da população. Quem assistiu à rodagem da procissão da Senhora do Pranto, por exemplo, e viu os barcos no rio, em sucessivos «rema para diante, rema para trás», compreende bem a mobilização e relacionamento da terra com técnicos e artistas. E, ainda, como assumiu o papel da ficcional Águas Altas.

A rodagem em Dornes terminou no sábado e, com ela, ficou quase concluída a história de www.aguasaltas.com. Uma história bem-disposta, mas não uma «comédia de gags». Uma «comédia afectuosa», que olha com ternura para as suas personagens: desde o solteirão pouco afortunado (Marco Delgado) à linguaruda dona da mercearia (Lia Gama), do marido amestrado (José Eduardo) à sua mulher (Margarida Carpinteiro), do padre (Adriano Luz) ao presidente da junta (Tony Correia).

Agora só faltam os escritórios da multinacional, que serão filmados em Lisboa, diz Galvão Teles. Dot Com pode estrear já no final da Primavera – pelo menos, em Espanha, Irlanda, Grã-Bretanha e Brasil, além de Portugal, países envolvidos na co-produção. E com uma sessão em Dornes, adverte Elizabete, habitante de Alqueidão de Santo Amaro e que «também entra» no filme. «O senhor Luís disse que ia ver se era possível.» Mas se não for, «não há problema, vamos todos vê-lo a Lisboa».